POR ELENILTO DAMASCENO: A primeira fase da linguagem

25 de outubro de 2023 - 07:01
Por Elenilto Saldanha Damasceno

O crítico literário, escritor, filósofo, professor e teólogo canadense Herman Northrop Frye, ao analisar a visão histórica da força linguística ou história da langage (linguagem) proposta pelo filósofo, historiador e jurista italiano Giambattista Vico, observa que “a primeira fase da linguagem se alicerça sobre a metáfora; como diz Vico, ela é inerentemente poética”. Conforme Frye, nas culturas pré-bíblicas e em grande parte dos textos em hebraico do Antigo Testamento, tem-se uma concepção de linguagem poética ou hieroglífica, na qual “há relativamente pouca ênfase na separação entre sujeito e objeto; ao invés disso, a ênfase recai sobre o sentimento de que sujeito e objeto estão interligados por uma energia ou poder comum a ambos; […] em tais contextos as palavras são forças dinâmicas, são palavras de poder”, das quais parece que emanam energias. Prevalecem as metáforas, pois “apenas metáforas podem expressar, na linguagem, o sentido de uma energia comum a sujeito e objeto”. Daí nessas culturas primitivas originarem-se crenças animistas e mitos orais a respeito de divindades que expressam formas de personalidades associadas a elementos da natureza, as quais estabelecem um “sentido de identidade entre ser humano e natureza”.

Ao analisar esse conceito de divindade, Frye aponta que, “na primeira fase da linguagem, a metafórica, o elemento unificador da expressão verbal é o ‘deus’, um espírito da natureza personificado”. Portanto, na fase hieroglífica ou metafórica da linguagem, “deus” é representado pela integralização entre o sujeito divino e o objeto concreto. O vocábulo “deus” é um substantivo concreto.

Frye também destaca que cada fase da linguagem “tem uma palavra característica para designar a entidade humana que usa a linguagem”. Na primeira fase, “o que chega mais perto de uma pura concepção metafórica é a palavra ‘espírito’ que, com suas ressonâncias de ‘sopro’, expressa o princípio unificador da vida que dá ao homem uma energia em comum com a natureza”.

Por fim, ele também relaciona essa primeira fase histórica da linguagem a sua respectiva literatura. A fase hieroglífica, inerentemente metafórica e poética, “é contemporânea de um estágio de sociedade em que a principal fonte do conhecimento culturalmente herdado é o poeta, […] o depositário de toda a sabedoria e de todo o conhecimento”. A literatura surge na poesia e na oralidade, pois, “com seus esquemas sonoros, […] o verso era o mais fácil veículo para uma cultura oral em que a memória, ou o manter-se viva a tradição, é de vital importância”. Compreende-se, assim, que “a primeira função da literatura, em particular da poesia, é a de ficar recriando a primeira fase da linguagem, a metafórica, […] representando-a como uma modalidade de linguagem que nunca devemos nos permitir subestimar, e muito menos perder de vista”.

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