POR ELENILTO SALDANHA DAMASCENO: Tipos de discursos

18 de julho de 2023 - 10:49
Por Elenilto Saldanha Damasceno é professor, escritor, revisor literário e jornalista

Nas narrativas literárias, os tipos de discursos representam as vozes de narradores e personagens (suas expressões de falas, pensamentos e sentimentos). Os tipos de registros discursivos e as alternâncias entre eles contribuem na composição da dinâmica temporal e nas variações de foco narrativo. São três os tipos de discursos: direto, indireto e indireto livre. Neste artigo, serão explicados e exemplificados a partir de trechos do romance “Vidas secas”, do escritor alagoano Graciliano Ramos.

O discurso direto é a reprodução fiel da voz da personagem. É o discurso mais mimético, no qual a personagem tem voz autônoma. O discurso direto reforça o marco temporal no presente e instaura a cena. De acordo com os críticos literários e professores portugueses Ana Cristina Macário Lopes e Carlos António Alves dos Reis, “no discurso direto, que se encontra quer nos diálogos quer nos monólogos, a personagem assume o estatuto de sujeito da enunciação: a sua voz autonomiza-se, esbatendo-se concomitantemente a presença do narrador”.

– Vossemecê não tem direito de provocar os que estão quietos.

– Desafasta, bradou o polícia.

 O discurso indireto é a expressão da voz do narrador a qual transmite também a voz das personagens. É o discurso menos mimético, no qual o narrador é o sujeito da enunciação e a personagem não tem voz autônoma. O discurso indireto reforça o marco temporal no passado. Segundo Lopes e Reis, “o narrador não abdica do seu estatuto de sujeito da enunciação: seleciona, resume e interpreta a fala e/ou os pensamentos das personagens”.

Fabiano tinha ido à feira da cidade comprar mantimentos. Precisava sal, farinha, feijão e rapaduras. Sinha Vitória pedira além disso uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha.

 O discurso indireto livre configura-se através da oscilação entre as vozes do narrador e da personagem. É um discurso mimético e mais psicológico. O narrador dá vazão à autonomia da voz da personagem, mas mantém-se como mediador entre a realidade ficcional e a vida interior da personagem. Conforme Lopes e Reis, “É um discurso híbrido, onde a voz da personagem penetra a estrutura formal do discurso do narrador, como se ambos falassem em uníssono fazendo emergir uma voz ‘dual’. […] Este tipo de discurso permite representar os pensamentos da personagem sem que o narrador abdique do seu estatuto de mediador”.

Olharam os meninos, que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam pensando? zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão.

 

 

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