POR EVERTON CIDADE: Uma entrevista com o escrito Paulino Júnior

2 de agosto de 2022 - 11:31
Por Everton Luiz Cidade

Olha só que papo bacana que tive com o escritor Paulino Júnior. Ele nasceu em São Paulo, mas reside em Florianópolis. Paulino Júnior é militante e não se dá o luxo de não ser político. Contesta. Faz o corpo a corpo para mudanças sociais e o faz em seus contos. Conta e não desconta a história dos desvalidos. Ópera do Tripalium (editora ARS), seu novo livro, é a visão do trabalho onde as injustiças o tornam sombrio. Injustiça humana. Injustiça divina. Injustiça de berço ou programada. Paulino Júnior escreve fortes alertas. Sem alegorias.

Tua literatura é militante. Como levar a literatura a quem não tem energia física para ler de tanto trabalhar?

Agradeço pelo qualificativo “militante”, mas ressalto que minha ficção é militante no sentido que Nelson Werneck Sodré coloca a respeito do ‘ofício de escritor’, a de que todo criador é obrigado a apresentar os problemas que a vida coloca a sua frente, mas não é obrigado a apresentar as suas soluções, particularmente quando essas não estão amadurecidas e não são imediatas.

Sobre levar a literatura ao povo trabalhador que não dispõe de condições mínimas de acesso, entra em cena o Paulino militante, no sentido estrito do termo. Milito na célula de cultura Eglê Malheiros, do PCB (não confundam com o outro partido quase homônimo!), e temos um planejamento político que prevê intervenções artísticas e culturais em periferias e ocupações (algumas organizadas pelo próprio PCB). Enfim, estar organizado com a finalidade de intervenção política direta é a maneira mais efetiva de propor e conseguir acessibilidade ao patrimônio material e cultural da humanidade.

O conto é também teu estilo de literatura preferido para ler?

Boa pergunta para quem se define como um militante do conto e um aventureiro da crônica. Sobre a crônica, me refiro como um ‘aventureiro’ depois que fui convidado para escrever para o jornal Notícias do Dia, daqui de Florianópolis, e daí passei a exercer estritamente o gênero (embora tenha publicado muitos contos no espaço). Mas o conto pra mim é, de fato, um compromisso, praticamente um ‘estilo de vida’ (rsrsrs). Portanto, sim, o conto é o gênero que mais procuro para ler e o que mais retomo para reler. Diria mesmo que leio contos quase como um ritual, de maneira cerimoniosa; diferente de outros gêneros como poesia, peças teatrais e romances. Esses eu já leio de maneira mais desencanada, até por ‘diversão’, diria, principalmente a poesia. E gosto muito da máxima de um amigo e baita contista, Marcio Renato dos Santos: “Conto não vende. Ótimo! Vou escrever contos”.

Qual o fio lírico que conduz e amarra teus livros?

Penso que esse fio esteja no meu projeto estético. Defendo a tese de que cada escritor que se preze tem um tema com o qual se defronta, tal qual Édipo diante da intimidação da esfinge no penhasco de Tebas: Decifra-me ou devoro-te! O meu é o mundo do trabalho, ou mais especificamente, a labuta da classe trabalhadora.

Termos como ‘trabalho’, ‘emprego’, ‘serviço’, ‘profissão’, ‘bico’ e ‘desemprego’ têm caráter determinante no meu universo ficcional. Então passo a desenvolver situações com personagens envoltos pelo desafio da ‘obtenção de renda’, com todo peso que isso exerce na identidade social dos indivíduos, pois implica diretamente na função que será exercida na sociedade e como se transita nos intestinos dela.

Meus três livros (Todo maldito santo dia; A felicidade dos gafanhotos e outras crônicas; Ópera do Tripalium) são perpassados por este fio condutor. Não saio escrevendo o que me dá na telha.

Como dar coesão numa coleção de textos já publicados e inéditos como é Ópera do Tripalium?

A resposta dessa questão é um desdobramento da anterior. Como decidi por só colocar meus textos para apreciação pública depois de consolidado o plano geral de elaboração da minha ficção, meus contos e crônicas formam um conjunto perceptível pelo tema e estilo independente do ano de publicação. Inclusive, a escolha pelo termo ‘ópera’ para compor o título do livro também veio pela acepção de certo ‘desfile’ de modalidades diversas (árias, recitativos, coros, balé…) que compõem o gênero e que se juntam no palco para formar um todo orgânico.

Fale do Quinta Maldita, por favor!

Costumo dizer que o Quinta Maldita é o projeto cultural e literário mais democrático do Brasil. De um sarau físico, que ocorria em Florianópolis, migrou para as plataformas digitais, principalmente durante a pandemia, e isso fez com que fosse ampliada a participação de autores de todo Brasil e, inclusive, da América Latina e Portugal. Os responsáveis diretos pelo projeto são Demétrio Panarotto e Marcio Fontoura, guerreiros da cena de arte independente. Eu, enquanto participante ativo e expectador assíduo do projeto, acabei recebendo o convite para ser curador esporádico. Aceitei de pronto e assim nasceu o Palavras Revoltas, que eu chamo de “fanzine sonoro”, encravado no canal do Quinta Maldita; e já vai pra oitava edição sob minha tutoria. Aliás, fica o convite para os leitores acessarem pelo YouTube todos os programas do canal Quinta Maldita.

PAULINO JÚNIOR é um militante do conto e um aventureiro da crônica. Nasceu em Presidente Prudente/SP em 1979 e reside em Florianópolis/SC desde 2005. “Todo maldito santo dia” (2014) é seu livro de estreia, seguido de “A felicidade dos gafanhotos e outras crônicas” (2018) e seu mais recente “Ópera do Tripalium” (2022). Também atua em outras trincheiras culturais, como convidado para bate-papos em escolas, comunidades e eventos literários nacionais, membro da comissão de arte e enredo do bloco Comuna Que Pariu/SC, e curador do programa Palavras Revoltas para o sarau físico e eletrônico Quinta Maldita.

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