POR ELENILTO DAMASCENO II “Dom Casmurro” e o conflito na Crimeia

6 de abril de 2022 - 11:17
Por Elenilto Saldanha Damasceno é Professor, escritor e jornalista

A caracterização do espaço é um dos aspectos do plano ficcional de uma narrativa literária. Em sua obra “O discurso e a cidade”, Antonio Candido, professor, sociólogo e um dos principais críticos literários do Brasil, afirma que os elementos caracterizadores do espaço se articulam “para criar a impressão de verdade” e os efeitos de realidade e verossimilhança.

No célebre romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, aspectos referentes ao domínio da Geografia são associados para representação de espaços e ambientes, mas também remetem, conforme Candido, à condição psicológica de personagens, como tênue “reflexo da alma no espaço físico”.

Em “Dom Casmurro”, o código geográfico estabelece duas possibilidades de leitura. A principal é a representação do ambiente humano e social e do espaço geográfico do Rio de Janeiro no final do século XIX. A segunda é a representação da geografia política global da época. Em relação a essa leitura geopolítica, ao se observar menções a contextos externos ou estrangeiros na estrutura narrativa, a Europa, considerada centro de desenvolvimento político, econômico, social e cultural no final daquele século, recebe o maior número de referências.

A Europa é terra do poder e, “se onde há fumaça, há fogo”, vale afirmar, também, que onde há poder, há lutas e embates. No romance de Machado, a guerra da Crimeia, durante o século XIX, na qual os turcos (apoiados pelos aliados ingleses e franceses) se defendiam da invasão russa (potência emergente que confrontava os princípios do capitalismo industrial dominante), é tema de discussões entre o jovem protagonista Bentinho e seu vizinho Manduca, um rapaz leproso.

Manduca luta pela vida, em batalha inevitavelmente perdida, pois a lepra, à época, era incurável. Após a morte do vizinho, Bentinho chega à seguinte conclusão: “O próprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou três anos de dissolução, tão certo é que a natureza, como a história, não se faz brincando. A vida dele resistiu como a Turquia; se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa, não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a questão é saber, não se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa a ninguém, mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla”.

“Dom Casmurro” foi publicado em 1899. Passados mais de cem anos, a Crimeia desponta, novamente, como um elemento central no conflito entre nações em guerra na Europa. Mais uma vez, a luta pelo poder determina que Estados e milhares de pessoas morram. Os poderosos do mundo permanecem casmurros, a insistirem em confrontos e a teimarem na ideia de que o poder é mais importante do que a vida.

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